quinta-feira, 17 de setembro de 2015

NO COMEÇO DO AMOR


Morangos







No começo do amor, quando as cidades

nos eram desconhecidas, de que nos serviria

a certeza da morte se podíamos correr

de ponta a ponta a veia eléctrica da noite

e acabar na praia a comer morangos

ao amanhecer? Diziam-nos que tínhamos


a vida inteira pela frente. Mas, amigos,

como pudemos pensar que seria assim

para sempre? Ou que a música e o desejo

nos conduziriam de estação em estação

até ao pleno futuro que julgávamos


merecer? Afinal, o futuro era isto.

Não estamos mais sábios, não temos

melhores razões. Na viagem necessária

para o escuro, o amor é um passageiro

ocasional e difícil. E a partir de certa altura

todas as cidades se parecem.


Rui Pires Cabral, in 'Longe da Aldeia'