sábado, 26 de setembro de 2015

Hong Kong, capital do mundo






A Ásia está cada vez mais em destaque no panorama internacional. Hong Kong é o rosto de um continente que não sabe parar de crescer. O mundo todo poderia caber aqui.

Em Hong Kong a média da humidade relativa do ar ao longo do ano ronda os oitenta por cento. Isso sente-se mal se sai do táxi ou do comboio que nos traz desde o aeroporto. É como uma chapada quente, molhada, que quase nos deixa com tensão baixa. Os limites são repostos rapidamente quando temos que nos habituar a um local onde vivem sete milhões de pessoas. O trânsito adivinha-se caótico – há perto de oitocentos mil veículos em circulação todos os dias. A cada ano, 36 milhões de visitantes chegam em busca do luxo, do exotismo e da azáfama. Alguns chegam e ficam, apesar de ser na grande capital financeira da Ásia que se localiza o metro quadrado mais caro do planeta. As ruas são estreitas, o sol continua a não entrar entre os prédios. Há ladeiras e escadarias de tirar o fôlego. E lojas de todas as marcas. Mas também há memórias do cinema, feiras de antiguidades cheiro a comida.

Na primeira hora de Hong Kong, anda-se a vaguear. A informação chega a cada segundo, o olhar vai para o lado errado quando se atravessa a estrada. Há elétricos, automóveis, camiões, motos e pessoas a cada metro das ruas principais. Nas outras, há bancas que vendem tudo – fruta, legumes, peixe seco, telefones de última geração, camisolas do Ronaldo, relógios de ouro que podem muito bem ser falsos, roupa feita à medida, parafernália da Revolução Cultural chinesa, estátuas de marfim ou máquinas fotográficas. Só ao fim de um par de dias é que o mapa da cidade vai parecer um objeto familiar.

Se tem pouco tempo para conhecer a cidade, aqui fica um conselho: o Rickshaw Sightseeing Bus. São duas linhas de autocarro turístico fundamentais para descobrir este mistério asiático – a H1 e a H2. O passe de 24 horas fica por aproximadamente cinco euros e abrange 25 paragens ao longo desta cidade quase construída em socalcos, do mar até ao Pico Victoria. Do ponto mais alto da ilha de Hong Kong, a vista realmente deslumbra, de noite ou de dia. O elétrico para lá chegar parte da estação junto à Catedral de St. John, mas a fila nem sempre é convidativa. Há sempre a hipótese de ir de táxi, mas não é bem a mesma coisa.

À medida que entramos nas principais ruas de Hong Kong – Queen’s Road, Des Voeux Road e Connaught Road Central – o apelo do consumismo aperta. São demasiadas lojas para todos os bolsos e gostos. E não faltam os gigantes Armani, Cartier, Chanel, Piaget, Vuitton, Gucci ou Prada. Se é assunto que não lhe interessa, entre na mais desnivelada escada rolante do mundo, a que transporta passageiros de e para o nível intermédio da cidade. É uma das melhores formas de ver a agitação deste enclave. Entre a encosta e o Terminal Central, junto ao mar, milhares de pessoas percorrem a passadeira rolante para ganhar tempo e evitar o nível do solo, com os seus semáforos, trânsito e peões à espera do sinal verde. De dia, ganha-se tempo. À noite, escolhe-se o lugar para o próximo copo. É que por baixo desta passagem aérea e junto às suas várias saídas situam-se alguns dos bares e restaurantes mais badalados de Hong Kong.



Ao outro lado da baía, a Kowloon, a parte mais chinesa, chega-se de barco. Por apenas vinte cêntimos de euro, compra-se um bilhete no Star Ferry para Tsim Sha Tsui. São menos de dez minutos de viagem que valem por uma mala de mil euros. As embarcações saem de cinco em cinco minutos ou logo que ficam cheias. No seu percurso, cruzam-se com juncos antigos, batelões, iates de luxo e outros ferries. Em ambas as margens há dezenas dos sempre presentes arranha-céus. Só o cheiro a gasóleo pode causar algum desconforto durante a viagem, mas nada que não se resolva com a subida ao primeiro piso do barco. A vista é única para o Porto Victoria, para o Centro de Convenções e, mais ao longe, para a baía Causeway.

Em Kowloon, as primeiras atenções vão para a Torre do Relógio, construída em 1915 quando fazia parte da estação de comboios locais. Hoje, este edifício de 44 metros de altura serve de ponto de encontro e de memória para milhares de pessoas. A torre é um símbolo para os milhões de emigrantes chineses que chegaram ao terminal ferroviário para iniciar uma vida diferente em Hong Kong.

Ali bem perto está a homenagem ao cinema. Pontapés bem dados, golpes de braço poderosos, saltos impossíveis, cenas de luta míticas e uma morte tão misteriosa como lamentável fizeram de Bruce Lee um ícone mundial. Daí a romaria a Kowloon e à sua Avenida das Estrelas. De costas para o mar e para a cidade na outra margem, a estátua do ator é um dos locais mais visitados da região. Uns após outros, homens, mulheres e crianças querem ser fotografados com o ídolo. Imitam-lhe a pose, colocam os dedos em V, sorriem, esperam pelo clique das máquinas digitais e seguem viagem. Há mais estrelas para apreciar nos quatrocentos metros deste promenade à beira da água, como Jet Li, Jackie Chan ou Jet Li, mas estes atores ainda não têm direito a estátua. É neste passadiço à beira do mar que, às 20h, todos os dias, melhor se assiste ao espetáculo de luz nos arranha-céus da cidade. Marque no relógio e tente chegar antes da hora para conseguir o melhor local.

Ou então, deixe isso para outro dia e mergulhe nas ruas de Kowloon, perca-se nas vielas onde já não se fala inglês, mas onde se encontram os mercados, as lojas e os restaurantes mais fora do normal. Hong Kong nunca é igual, por mais vezes que lá se volte.

Fonte: Jornal de Notícias