domingo, 20 de setembro de 2015

ELENA FERRANTE : A LITERATURA É UM COMPROMISSO




“Já fiz o suficiente por esta história. Escrevi-a.” O resto é privado. O nome Elena Ferrante começa e acaba nas páginas de cada um dos seus livros, a sua verdade é exclusivamente literária. Para lá disso, surge a lenda.
Nasceu em Nápoles há uns 60 anos. Por vezes, aparece uma data associada: 1943. Será mulher, terá sido mãe? É especulação, como tudo o que ultrapassa a literatura sempre que se fala de Elena Ferrante. Das poucas entrevistas que deu, todas por escrito e sempre intermediadas pelos editores italianos, foi-se sabendo que tem formação em literatura clássica, que gosta de Tchékhov, que viveu na Grécia. Numa dessas entrevistas, perguntaram-lhe porque escolheu não ser uma figura pública. “Talvez por qualquer desejo neurótico de intangibilidade”, respondeu. E ainda que o anonimato lhe permite maior liberdade, livra-a de qualquer espécie de auto-censura. “Escrever sabendo que não vou aparecer produz um espaço de absoluta liberdade criativa.” Talvez esteja aí a génese de uma escrita tão limpa quanto furiosa, “brutalmente honesta”, quase sempre sobre mulheres em situações limite, desapontadas, marcadas por um passado de que não se conseguem livrar, a viver momentos de paixão ou abandono; uma escrita capaz de descrever o asco que tantas vezes faz calar quem o sente e baseada numa premissa: a de que se a realidade permite a mentira, a escrita não.
A literatura é o compromisso exclusivo de Elena Ferrante. Tudo o resto é uma tentativa de construção de biografia que pertence à esfera do privado e tem como protagonista outro nome. Ao contrário dos grandes eremitas da literatura, Ferrante escolheu esconder-se na sua própria identidade. Não há um rosto, não há um nome. Apenas um pseudónimo que está a conquistar admiradores por todo o mundo depois de ter conseguido o respeito dos italianos desde que publicou o primeiro romance, L’Amore Molesto, em 1991. É desse momento a frase inicial deste texto: “Já fiz o suficiente por esta história. Escrevi-a.” Está numa carta dirigida aos seus editores sobre a promoção do livro que seria adaptado ao cinema por Mario Martone, em 1995. “Não pretendo fazer nada (…) que possa envolver qualquer compromisso público em que eu apareça pessoalmente.

Isabel Lucas