sábado, 12 de setembro de 2015

E se a Carochinha casar com uma menina?




E se a Carochinha casar com uma menina?
12 Setembro 2015

Catarina Marques Rodrigues


A Maria tem dois pais, o Tiago gosta de vestidos, o Teodorico tem duas mães cegonhas. Há cada vez mais livros infantis com temas LGBT. Como falar com as crianças sobre homossexualidade?


O filho Matias, a mãe Marta e a mamã Mariana
As crianças nascem preconceituosas?
Quando os pais e os professores têm dúvidas
Se somos iguais, porque é que os casais gay antes não podiam casar?

Tudo começou em 2012. Joana Estrela, hoje com 25 anos, queria concorrer a um concurso da ILGA que premiava histórias com temas LGBT. Dentro da sigla, escolheu a letra T para tratar. Daí nasceu Tiago, o menino transgénero que adora vestidos.

As “coisas para rapazes e coisas para raparigas” já lhe faziam confusão desde cedo, até porque padrões imutáveis é coisa que nunca lhe foi ensinada. “Numa das fotos que tenho lá em casa, o meu bisavô está vestido de rapariga quando tinha mais ou menos cinco anos. Aparentemente era porque a mãe dele queria muito ter uma filha e às vezes, quando ele era mais novo, vestia-o com vestidos. O retrato da família saiu com ele vestido de menina” confessa, entre os risos que a história lhe provoca.

O livro foi escrito, ilustrado e depois publicado pela própria. Não estando sob a alçada de uma editora, o livro vive do passa-palavra e das vendas em algumas galerias do Porto, bem como numa ou noutra feira. Também pode ser encomendado pela internet. Como ela, há cada vez mais autores e ilustradores a trabalhar em livros com famílias homoparentais e com meninos transgénero.

Chegaram-lhe reações de mães e sobretudo de pessoas com a sua idade. “Lembro-me de um rapaz que me mandou uma mensagem a dizer que se lembrou dele próprio, de quando a mãe lhe comprava barbies às escondidas do resto da família quando ele era miúdo”. Situações que, embora frequentes, são pouco faladas. “Acontece muito virem ter comigo e contarem-me ‘ah, eu também tinha um primo que gostava de vestir vestidos’. Acho que toda a gente conhece alguém, mas toda a gente acha que é caso único“.

Há muitos, muitos anos, Charlotte Zolotow foi pioneira com “A boneca do William”. Em 1972, a autora lançava um livro sobre um rapaz que queria uma boneca. “Heather has two Mommies” (Heather tem duas mães) foi lançado em 1989, pela autora Leslea Newman. A partir daí, foram surgindo cada vez mais livros a pouco e pouco.

-Se a sociedade tem gays e lésbicas, então essa realidade tem de estar nas histórias.Tal como os clubes de futebol, os partidos políticos ou a escola. É um reflexo natural do que é a sociedade.
Mário Cordeiro, pediatra

Os primeiros em português foram editados pela ILGA. Através de uma parceria com a Fundación Triángulo, os livros espanhóis “De onde venho?” e “Por quem me apaixonarei?” chegaram a Portugal em 2007. O primeiro conta a história de uma menina que quer saber de onde vêm os bebés. O segundo fala de um professor que diz aos alunos que um dia vão apaixonar-se, e que o amor não escolhe pessoas.

Já em 2012, o concurso “Um Conto Arco-Íris” premiou um projeto, no meio de 44, e editou-o. O vencedor foi o livro “Primeiro Cresci no Coração”. Conta a história de Lilás e de toda a família: o pai Baunilha, o pai Mel, a avó Canela e a avó Pão de Ló.



"Primeiro Cresci no Coração". Texto de Filipe de Bruxelas e Ilustração de Pedro Miguel Rosa.

Catarina Marques Rodrigues
8 fotos

Estes livros funcionam de várias formas. Por um lado, ajudam a que as crianças em famílias heterossexuais possam ter contacto com outras realidades. Depois, “é importante que os miúdos que estão em famílias LGBT possam conhecer outras famílias como as delas”, que não são a maioria na sociedade, explica Isabel Advirta, presidente da ILGA.


Isabel socorre-se de vários estudos e defende que “o que importa numa família é a relação entre os membros, e não a constituição da mesma. É a relação e não o formato da família que proporciona bem-estar”. Nesse sentido, a presidente que foi também júri no “Um Conto Arco-Íris” diz que as melhores histórias são as mais simples. “Não queremos tratados políticos nem referendos, são livros infantis. Os que mais gosto são sobre famílias reais, e aqueles em que se perceba que apaixonar-se é sempre uma coisa boa”.

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