terça-feira, 29 de setembro de 2015

ÁLCOOL






Guilhotinas, pelouros e castelos


Resvalam longamente em procissão;

Volteiam-me crepúsculos amarelos,

Mordidos, doentios de roxidão.


Batem asas d'auréola aos meus ouvidos,

Grifam-me sons de côr e de perfumes,

Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,

Desce-me a alma, sangram-me os sentidos.


Respiro-me no ar que ao longe vem,

Da luz que me ilumina participo;

Quero reunir-me, e todo me dissipo -

Luto, estrebucho... Em vão! Silvo pra além...


Corro em volta de mim sem me encontrar...

Tudo oscila e se abate como espuma...

Um disco de ouro surge a voltear...

Fecho os meus olhos com pavor da bruma...


Que droga foi a que me inoculei?

Ópio d'inferno em vez de paraíso?...

Que sortilégio a mim próprio lancei?

Como é que em dor genial eu me eterizo?


Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,

Foi alcool mais raro e penetrante:

É só de mim que eu ando delirante -

Manhã tão forte que me anoiteceu.


Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'