quinta-feira, 24 de setembro de 2015

A ESCRITORA




O Eléctrico 16 é o novo romance de Filomena Marona Beja que confiou à Divina Comédia editores a sua publicação.
O romance desenrola-se no período entre 1943 e 2012, mais especificamente desde o fim da 2ª Guerra Mundial até às eleições legislativas realizadas em Portugal, em 2012.
Parca em palavras e muitas vezes contida, a escritora não deixa nada por dizer, quer através dos personagens, quer pelo narrador que interage intercaladamente com os personagens à medida que se desenrola a história. Tal como a carreira percorrida pelo elétrico 16, num percurso ribeirinho, partindo de Xabregas até Belém sendo um dos percursos mais longos dos transportes de Lisboa.
Numa espiral sucessiva de passado-presente-passado-presente, somos confrontados com os anseios e receios da população portuguesa tanto de há 50-60 anos atrás, como nos nossos dias, os avanços tecnológicos que tiveram lugar, assim como as expetativas e a esperança face ao futuro que, à semelhança da candidatura do General Humberto Delgado, em 1958, foram defraudadas pelo regime de Salazar. Atualmente também questionamos quais são as expetativas do povo após o ato eleitoral de 2012 na medida em que se tem assistido a um continuado agravamento das condições de vida dos portugueses. A ideia de desconfiança de um sistema democrático que tanto se desejou após quase meio século de ditadura traz cada vez mais a real noção das perdas que entretanto tiveram o seu impacto incluindo em coisas tão simples do dia-a-dia como a supressão de certas carreiras como a do elétrico 16 que dá título ao livro.
A novidade das bilhas de gás, a generalização da electricidade, as torradeiras, os autocarros que timidamente circulavam em Lisboa, a inauguração do metropolitano, os automóveis, a televisão, os computadores, o iPod, o Facebook, a banda larga, o plasma e até as máquinas de café tão em voga que basta colocar a pastilha e ligar a água são alguns dos vários exemplos de desenvolvimento tecnológico que Portugal tem vindo gradualmente a acompanhar desde os anos 40 do século passado tornando-se, deste modo, um país desenvolvido como os outros países do mundo ocidental.
Do ponto de vista social, também os amores contidos, mas que se desejam, o amor que se quer correspondido, a virgindade que se oferece ao homem que se deseja, o receio de cair em desgraça, os falsos moralismos, os corpos que se entregam ante o olhar indiscreto das vizinhas invejosas que mantêm as janelas entreabertas, o boato que se espalha na proporção da inveja, o olhar cabisbaixo e envergonhado aquando da compra do preservativo, o aparecimento da pílula revolucionária, a gravidez (in)desejada, a parteira que faz desmanchos no Poço do Bispo. Parteira para quem precisa, pecadora aos olhos dos outros. A coragem de assumir uma gravidez sem necessidade de casamento. Outra grande coragem. A mesma facilidade com que se realiza um casamento, também se põe termo a ele com o divórcio, pais que não sabem o que fazer dos filhos, filhos que são o retrato mais fiel dos pais, cada vez mais inconscientes e inconsequentes, prisioneiros das tecnologias e da realidade virtual encarando a vida de forma simples e prática com a resolução à distância de um click.
A liberdade que se ganhou com o 25 de abril de 1974 e que pôs termo à longa ditadura é em si mesma dotada de condicionalismos e contrariedades, nem sempre utilizada da melhor forma e que no entender da personagem principal “a liberdade é uma luta” (p. 251).
O Eléctrico 16 mostra-nos, deste modo, um Portugal repleto de desafios por concretizar perante ganhos e perdas que não tem sabido gerir bem após a «Revolução dos Cravos». O Eléctrico 16 coloca constantemente o passado e o presente do país em confronto encontrando muitos pontos em comum, nomeadamente ao nível político e económico, em que os portugueses pouco ou nada esperam dos sucessivos governos, sendo confrontados com uma espiral de desemprego cada vez mais preocupante, assim como o agravamento das condições de vida que traz consigo a perda de direitos constitucionalmente estipulados.
Da mesma forma que milhares de portugueses se mobilizaram por iniciativa própria, em Santa Apolónia, em 1958, esperando o General Humberto Delgado, também hoje em dia, os cidadãos têm organizado algumas manifestações arrastando multidões para as ruas na tentativa de lhes ser devolvida a esperança num país com um futuro melhor.
A grande questão de fundo de O Eléctrico 16 é precisamente «Para onde caminhamos?»
Filomena Marona Beja presenteou-nos com uma obra que nos obriga a pensar para além do prazer da leitura que nos proporciona tendo em consideração o seu estilo muito próprio, muito contido, mas com sentido aguçado e oportuno.
Filomena Marona Beja desvenda algumas das histórias por trás do seu novo romance O Eléctrico 16:
RODA DOS LIVROS