domingo, 9 de agosto de 2015




Três Poemas da Solidão

I

Nem aqui nem ali: em parte alguma.

Não é este ou aquele o meu lugar.

Desço à praia, mergulho as mãos no mar,

mas do mar, nos meus dedos, fica a espuma.


Meu jardim, minha cerca, meu pomar.

Perpassa a Ideia e mói, como verruma.

Falar mas para quê? Só por falar?

Já nada quer dizer coisa nenhuma.


Os instintos à solta, como feras,

e eu a pensar em velhas primaveras,

no antigo sortilégio das palavras.


Agora é tudo igual, prazer e dor,

e a tua sementeira não dá flor,

ó triste solidão que as almas lavras.


II


Tão só!

Cada vez são mais longos os caminhos

que me levam à gente.

(E os pensamentos fechados em gaiolas,

as ideias em jaulas.)


Ah, não fujam de mim!

Não mordo, não arranho.

Direi:

— «Pois não! Ora essa! Tem razão».


Entanto, na gaiola,

cantarão em silêncio

os sonhos, as ideias,

como pássaros mudos.


III


Solidão.

A multidão em volta

e o pensamento à solta

como alado corcel.

E as ideias dispersas, em tropel,

como folhas ao vento

pétalas do Pensamento.


Solidão.

A angústia da Cidade,

a impossível procura da Unidade,

o clamor

do silêncio interior,

mais pungente, estridente,

que os bárbaros ruídos

que ferem, dilaceram

os nervos e os sentidos.


Fernanda de Castro, in "E Eu, Saudosa, Saudosa"

// Consultar versos e eventuais rimas