quarta-feira, 22 de julho de 2015

Todos possuem...eu não !


Como Eu não Possuo


Olho em volta de mim. Todos possuem -

Um afecto, um sorriso ou um abraço.

Só para mim as ânsias se diluem

E não possuo mesmo quando enlaço.


Roça por mim, em longe, a teoria

Dos espasmos golfados ruivamente;

São êxtases da côr que eu fremiria,

Mas a minh'alma pára e não os sente!


Quero sentir. Não sei... perco-me todo...

Não posso afeiçoar-me nem ser eu:

Falta-me egoísmo pra ascender ao céu,

Falta-me unção pra me afundar no lôdo.


Não sou amigo de ninguém. Pra o ser

Forçoso me era antes possuir

Quem eu estimasse - ou homem ou mulher,

E eu não logro nunca possuir!...


Castrado de alma e sem saber fixar-me,

Tarde a tarde na minha dor me afundo...

Serei um emigrado doutro mundo

Que nem na minha dor posso encontrar-me?...


* * * * *


Como eu desejo a que ali vai na rua,

Tão ágil, tão agreste, tão de amor...

Como eu quisera emmaranhá-la nua,

Bebê-la em espasmos d'harmonia e côr!...



Desejo errado... Se a tivera um dia,

Toda sem véus, a carne estilizada

Sob o meu corpo arfando transbordada,

Nem mesmo assim - ó ânsia! - eu a teria...


Eu vibraria só agonizante

Sobre o seu corpo de êxtases dourados,

Se fôsse aquêles seios transtornados,

Se fôsse aquêle sexo aglutinante...


De embate ao meu amor todo me ruo,

E vejo-me em destrôço até vencendo:

É que eu teria só, sentindo e sendo

Aquilo que estrebucho e não possuo.


Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'

// Consultar versos e eventuais rimas