domingo, 5 de julho de 2015

Poema de Amor

É inacreditável, mas essas mulheres sensuais na verdade não são mulheres Stacy Leigh/Divulgação
Diário 15

Acordei a ler-te
Leio teu corpo, cidade aberta,
A todos os rostos e mãos
A todas as bocas espantadas
A todos os odores dependurados
Às portas dos cafés, ausentes,
Da frescura e dos aromas de Maio
A todas as fachadas, onde a claridade
Acentua o declínio e, toda a tristeza
Dos braços postos à janela do porvir.
Cidade pendurada nos telhados
Onde a alegria espreita o Tejo
E o canto das aves atenua
A solidão dos passos rasando a pedra.
Teu corpo que na cidade cresceu
Envolveu-se em madrigais etéreos
Percorreu ruas e vielas de fados
Cantados amados e à janela expostos
Em lençóis de adeus precoce e,
Subiu colinas na ânsia de voar
Na alta claridade da luz azul.
Bebi contigo em catedrais
Onde o álcool era a surpresa do instinto
Amei-te em jardins suspensos das palavras
Onde outros olhares flutuavam de desejo
Rodeados na folhagem dos murmúrios
No canto nocturno dos pássaros, bebendo
O furor uterino das árvores.
Percorri contigo as noites de néones inflamados
Na insolvência dum amor que entontecia
Beijei-te no alvorecer das cidades
E nos hálitos fermentados da paixão.
Adormeci no teu dorso olhando o céu
E acordei a ler-te, cidade que me és corpo.

Joaquim MONTEIRO
2011-10-18

Casal paxonado 3