quarta-feira, 1 de julho de 2015

Carta de amor de Soror Mariana Alcoforado


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Primeira Carta
«Considera, meu amor, até que ponto foste imprevidente! Oh!, infeliz, que foste enganado e a mim enganaste também com esperanças ilusórias. Uma paixão sobre a qual tinhas feito tantos projectos de prazeres não te causa agora mais do que um mortal desespero, só comparável à crueldade da ausência que o provoca. E esta ausência, para a qual a minha dor, por mais que se esforce, não consegue encontrar um nome assaz funesto, há-de então privar-me para sempre de fitar esses olhos onde eu via tanto amor, esses olhos que me faziam saborear emoções que me cumulavam de alegria, que eram o meu tudo, a tal ponto que deles só precisava para viver?
Ai de mim! Os meus encontram-se privados da única luz que os animava e só lhes restam as lágrimas; não os tenho usado, senão para chorar incessantemente, desde que soube que estavas decidido a um afastamento que não posso, suportar e me fará morrer em pouco tempo.
Parece-me, contudo, que chego. até a prezar as desgraças de que és a única causa: dediquei-te a minha vida assim, que te vi e sinto algum prazer sacrificando-a a ti.
Mil vezes ao dia dirijo para ti os meus suspiros: eles procuram-te em toda a parte e, como recompensa de ta4ntas inquietações, apenas me trazem o aviso demasiado sincero da minha triste sorte, que tem a crueldade de não suportar que eu me iluda e que a cada passo me diz: basta!, basta!, infeliz Mariana, basta de te consumires em vão e de procurares um amante que nunca mais voltarás a ver; um amante que atravessou o mar para fugir de ti, que está em França no meio dos prazeres e nem por um momento pensa nas tuas dores; um amante que te dispensa de todos esses transportes que nem sequer te agradece.

Mas não!, não posso resignar-me a fazer-te a injúria de pensar assim e tenho demasiado interesse em te justificar. De modo nenhum quero imaginar que me tenhas esquecido. Não sou eu já suficientemente infeliz, mesmo sem me atormentar com falsas suspeitas? E por que razão havia de me esforçar por esquecer todos os desvelos que puseste em me testemunhar amor? Tão encantada fiquei com tais desvelos que bem ingrata seria se não te amasse com o mesmo arrebatamento que a minha paixão me dava, quando me era dado gozar os testemunhos da tua.

Soror Mariana Alcoforado

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