quinta-feira, 30 de julho de 2015

A VIDA PASSA PELA JANELA





"Pela janela do carro, pelo portão do condomínio, pela grade do clube, pelo muro da escola, pelo corredor do shopping… A vida passa feito filminho, e a criança é espectadora. Ela assiste. Sempre assistida por alguém. Cada vez mais é privada de interação em nome da segurança. Mas priva-se da vida, dessa forma. E cria-se a cultura do medo. Porque tudo pode ser perigoso. E como fazemos pra educar pra vida? Quando deixar seu filho ir sozinho na padaria ou na banca de jornal?


Certamente essa geração de crianças não vai andar de ônibus com a mesma idade em que a minha geração andou. Com 12 anos eu pegava ônibus para ir ao clube e passava a tarde toda por lá. Depois voltava pra casa sozinha também. Será que hoje, com 12 anos, temos coragem de pôr um filho no ônibus e dizer “vai”? É provável que a maioria diga que não, e não tiro razões pra isso. Mas quando fechamos a criança numa redoma de proteção (ou falsa proteção), tiramos dela o direito de viver, de se relacionar com a vida, de aprender.


Porque são coisas inerentes à vida. Que precisam ser ensinadas e vividas. Sem medo, mas com coragem e confiança. Coragem de saber que seu filho está pronto e pode ir. De que ele cresceu e conquistou o poder de ir um pouco mais longe agora. Para cada idade uma conquista. Uma janela que deve ser aberta. E confiança na dona vida, de que tudo vai dar certo. O que tiver que ser, será.


Porque muitos pais proíbem pelo medo do que pode acontecer. Um assalto, um sequestro relâmpago, ou sei lá qual maldade dessa mesma dona vida. Mas o escritor moçambicano Mia Couto diz, feito poesia, que “dá azar um homem deixar de ver a própria sombra”. Eu diria que Mia Couto está nos dizendo algo como “dá azar deixar de ver os próprios medos”, ou seja, é preciso encarar. E esse é o preparar um filho pra vida, pro mundo, como se diz.


A vida muda na proporção da nossa coragem. Porque criança não fica no banco assistindo, feito espectadora. De um gesto pequeno, como o de deixar a criança brincar na rua, ao gesto maior, do pegar ônibus ou andar sozinha, criança precisa se relacionar. Precisa de interação. Seja com a sociedade, num campo menor de relacionamento, ou com a cidade, no campo maior. Tudo pequeno e aos poucos. Para existir aprendizado e, daí sim, poder ter conquista.


É difícil? Sim! É difícil pacas! O cineasta e poeta chileno Alejandro Jodorowsky tem uma frase linda e muito simbólica da infância hoje que diz o seguinte: “Pássaros criados em gaiolas acreditam que voar é uma doença”. E aí, vamos mantê-las presas até quando?"

Carolina Delboni – Jornalista