domingo, 12 de julho de 2015

A tragédia dos adultos que mentem aos pais e aos filhos






Na adolescência todos mentimos aos nossos pais, de vez em quando. Eu até era demasiado bem-comportadinha, mas a Vanessa fartou-se de mentir, mentir a rodos, inventar noites em casas de amigas que nunca o foram, dizer aos pais que ia para Sul quando ia para Norte, um horror. Agora voltou a mentir aos pais e passou a mentir aos filhos. É triste, muito triste.

Há uma época nas vidas em que se mente aos pais. Não há nada a fazer, as coisas são quase sempre assim. Quanto mais conservadores são os pais, mais se mente – infelizmente, naquela altura entre a adolescência e a idade adulta, raramente os pais nos percebem. Para termos aquilo a que gostamos de chamar alguma “vida própria” temos que mentir.

É feio, é horroroso, mas é assim. De certa maneira, pais e filhos já estão preparados para viver isso. É a mentira do crescimento. Toda a gente fez e raramente alguém saiu muito traumatizado (que eu saiba). A mentira do crescimento é uma versão alternativa da mentira piedosa. Geralmente não é um grande pecado.

Depois cresce-se e então passa-se a ter “vida própria” que é uma coisa excelente, embora dê imenso trabalho. Somos independentes, começamos a criar os filhos. Mente-se menos aos pais que entretanto se conformaram com a vida que escolhemos (na maioria dos casos). Ou quase não se mente.

Mais problemática é quando se envelhece e o acto de mentir, em vez de diminuir, aumenta exponencialmente.

É o caso da Vanessa.

– Oh pá, não sei o que faça com isto do Paulo.

– Quem é o Paulo???

– Fogo, pá, já te tinha falado no Paulo. É um gajo com quem comecei agora a sair.

Eu devia estar mergulhada nas sucessivas reuniões do Eurogrupo por causa da Grécia que não me lembro de a ouvir falar no Paulo. Ou sou eu que já só fixo metade das conversas?

– Bolas, que se passa contigo? Eu contei-te do Paulo!! É um tipo engraçado, queridinho até. Temos ido beber uns copos. E agora ele convidou-me para ir passar um fim-de-semana ao Alentejo.

– Não vás!

– Porquê?

Eu sou contra fins-de-semana no Alentejo. Faz muito calor, comem-se muitos enchidos e há qualquer coisa na paisagem alentejana que tolda o entusiasmo e quase inevitavelmente conduz ao desinteresse. Conheço vários casos de potenciais namoros que rebentaram logo ao primeiro fim-de-semana no Alentejo.

– Vai para o Oeste. Foz do Arelho, por aí.

– Não me interessa para onde vou. O que me chateia é que não sei como explicar aos miúdos que não vou estar cá o fim-de-semana. Achas que diga que vou com uma amiga? Por exemplo, que vou contigo?

– Isso é melhor não! Não me apetece passar o fim-de-semana trancada em casa com medo de que os teus filhos me encontrem na rua!

A Vanessa tinha três filhos adultos, com vinte e poucos anos que eu conhecia desde que nasceram.

– Pois, mas não posso chegar ao pé deles e dizer que vou passar um fim-de-semana com o Paulo!!! Ao fim e ao cabo quem é o Paulo??? Nem eu sei bem quem é o Paulo!!! Eu não posso traumatizar os meus filhos!!! Já viste o que é para eles ficarem com a noção de que a mãe passa fins-de-semana com tipos que nem sabe ao certo quem são?

– Pois, é chato. Mas há coisas ainda mais chatas (eu estava a pensar na Grécia).

– Acho que lhes vou dizer que preciso de ficar sozinha. Mas olha, como também preciso de mentir aos meus pais, não te importas que aos meus pais eu diga que vou contigo? É que se eu lhes disser que vou sozinha eles ficam muito preocupados e podem achar que eu não estou boa da cabeça. Aos putos digo que vou sozinha, aos meus pais que vou contigo, está bem assim?

A meia-idade é muito cansativa.

(Vanessa/Ana Sá Lopes)
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