quinta-feira, 4 de junho de 2015

Violência


Violada


Fonte: APAV-violência doméstica



Possuíram-te nas ervas,

Deitada ao comprido

Ou lívida a pé:

Do estupro conservas

O sangue e o gemido

Na morte da fé.


Chegaste a cavalo

Trémula de espanto:

Esperavas levá-lo

Com modos de amor:

O fátum, num canto,

Violento ceifou-te

O púbis em flor:

Dou-te

O acalanto

Mas não há palavras

Para tal horror!


Vem ainda em cós, mulher,

Limpa as tuas lágrimas no meu lenço:

Nem pela dor sequer

Eu te pertenço.


O cavalo fugiu,

Deixou-te em fogo a fralda:

Que malfeliz Roldão

Para tal Alda!

Ao frio, ao frio,

Tinta de ti é a água e sangue o chão.


Ponta Delgada a arder

Do próprio pejo, quis

Em verde converter

O incêndio do teu púbis.


Mulher, não me dês guerra,

Oh trágica enganada:

Tu és a minha terra

Na carne devastada

Como a Ilha queimada.


Vitorino Nemésio, in "Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga"

// Consultar versos e eventuais rimas



Tarquínio e Lucrécia, de Ticiano


Interior (o estupro) de Edgar Degas