segunda-feira, 15 de junho de 2015

Sou os livros por escrever...




Sou os livros por escrever. Os textos que nunca escrevi. As fúrias que nunca tive. Sou a calma que aprendi. O dia que não vivi. Tudo o resto, já despejei, já não me pertence.
O que vive connosco é o que nunca fizemos. A viagem sempre adiada. O beijo prometido e nunca dado. Os corpos que não conhecemos. Essa inquietação é que nos faz viver. Tudo o resto está catalogado e arrumado, em ficheiros com segredos que muitas vezes esquecemos.
Sempre me habituei a visualizar as coisas de forma espacial. Ali vejo os números e faço as contas. Está tudo escrito e fixado numa tinta transparente. Nada tem cor. Só significado.
Por vezes aparecem-me frases escritas em quadros imaginários. Algumas vezes não as armazeno, por puro desmazelo. Outras frases irão surgir. É claro que isto fica só entre nós. Há coisas que muita gente não compreende.
Uma amiga minha, que não tem lágrimas e usa umas gotas especiais para chorar, disse que eu tenho uma aura espectacular. A partir desse momento tomei outras precauções quando vou ao cabeleireiro. Falo sempre, para terem cuidado com a aura. Eles, felizmente, pensam que eu estou a brincar.
Se ela diz que vê, para quê perder tempo a desmenti-la?
Hoje sinto num dia de particular inquietação. Um desassossego que não entendo. Não sei se ligue pelo “Skype” à minha amiga, para ela ver o estado da minha aura.
– Tu pára com essa história dos espiritismos, que isso não é coisa muito cristã e essas coisas metem-me impressão.
Repreende-me a Isaurinda.
– Mas tu ouviste ela dizer o que eu estou a contar.
Respondo.
– Ouvi e digo-te, que essa moça até pode ser muito tua amiga, mas não deve ter os cinco alqueires bem medidos.
Retorna a Isaurinda.
Também estas conversas, são parte do meu viver. Do meu crescer cada vez mais lento. A idade não perdoa. A Isaurinda é que pensa que ainda sou o vadio que ela conheceu. O seu instinto maternal, mata-me de ternura.
Vou buscar um livro e sento-me a ler. Sempre um foco de luz sobre a página. Mesmo que seja de dia. O esforço do escritor merece ser iluminado. Vou passando as páginas e limpando as lentes dos óculos. Uns óculos eternamente sujos. O livro prende-me. Já não existe mais nada no meu entorno. Cavalgo as linhas como se estivesse a ouvir uma música, inebriante a sensação. Já nem a labuta e a presença da Isaurinda sinto.
Sei que serei, durante uns dias, aquele livro e com ele viverei. Sei que vou descurar outras coisas importantes. Sei que serei outras vidas. A luz começa a fazer sentido. A Isaurinda nunca me interrompe quando me vê neste estado quase catatónico. Talvez a sua condição de analfabeta a leve a respeitar uma coisa que ela não é capaz de fazer.
Por vezes, quando termino o livro, vem de mansinho e diz-me:
– Contas-me a estória?
Se lhe digo que este livro não conta nenhuma estória, então é que fica um pouco desolada. Mas sorri sempre.
Claro que eu acabo sempre por lhe contar uma estória.
Jorge C Ferreira (Reino de Valência) Jun/2015(36)