terça-feira, 23 de junho de 2015

Procuro a insanidade perfeita [título da responsabilidade do editor]







De repente, luz. Uma intensa claridade. Uma frase que muda a nossa vida. A virgindade perdida. Por vezes apenas dor, disse-me uma amiga enquanto me beijava os lábios. Um sabor amargo. Afinal não era aquele.

Percebi tudo naquele instante. Percebi a noite e o dia. Percebi a euforia da tristeza. Esvazio-me de quase tudo o que tinha aprendido antes. Guardo apenas algumas marcas que o corpo me lembra. Uma nova cartilha tinha entrado no meu saber.

Interrogo-me sobre o que busco. Se faz sentido a busca. Procuro a insanidade perfeita. Sempre me fascinou o contrário do que fui obrigado a ser. Quebro alguns tabus. Sou o primeiro da minha família a fazê-lo. Assim fui crescendo. De asneira em asneira. De paixão em paixão. Até que o amor me beijou.

Foram muitos comprimidos e muito álcool. Muita noite em claro.

– Levavas uma vida linda, levavas.

Diz-me a Isaurinda com ar de mãe que dá uma reprimenda ao filho.

– Se não passasse pelo que passei, não seria o que sou hoje.

Respondo-lhe.

– Estórias, eu nunca andei nessas vidas e ando cá.

Responde-me ela.

– Tu foste mulher de um só homem.

Digo-lhe com ternura.

– Claro, que esperavas de mim? O primeiro homem é para sempre.

Assim me relembra a forma de vida dos mais antigos.

É então que me vêm à memória. Os casamentos, as amantes consentidas e quase oficiais. Mulheres com casa montada. Os Pais que pediam a Amigos para levar os filhos às prostitutas. «Já é tempo do rapaz se estrear.»

Tempos que nos custam a aceitar. Tempos a que ainda assisti.

Casamentos de fachada, de conveniência, casamentos para sempre. (Até que a morte os separava.)

Então chorava-se e vinham as carpideiras oficiais da rua. Rezavam-se terços e missas e o marido, “exemplar”, era louvado.

– Tu hoje estás danado para inventar estórias.

Torna a Isaurinda.

– Não estou a inventar tu sabes que era assim.

Respondo.

– Nem todos, o meu homem foi um companheiro fiel.

Responde-me a Isaurinda.

– Foste mulher de sorte e és bonita.

Digo-lhe.

– Deixa de engraxar. Já te conheço bem.

Diz-me de novo, enquanto me vira as costas, com o pano do pó na mão.

Os quadros de vida não deixam de me inundar a cabeça. Coisas que devem estar enterradas em sótãos de famílias que ocupavam a primeira fila da missa das onze.

A missa em latim. Eu de alva com capuz a ajudar à missa. A minha Avó orgulhosa. O meu Avô danado.

O laicismo da primeira República. A estátua de António José de Almeida. Fugir à polícia. Ouvir as rádios proibidas.

Resistir, a palavra que mais interiorizei. Foi o meu Avô que mais me ensinou. A minha Avó foi a ternura. As mãos inteiras da minha vida, as mãos que me enchiam todo de alegria. O meu Avô a voz da responsabilidade, da importância da “palavra de honra”. Com ele aprendi, sem que ele desse conta, a amar o proibido. A ser do contra. A seguir o meu caminho.

– Por hoje já chega.

É a Isaurinda a ordenar o fim da minha viagem.

Eu obedeço.

Jorge C Ferreira (Reino de Valência) Jun/2015(37)

Texto publicado no Jornal de Mafra