sábado, 6 de junho de 2015

Namorar um sonho


Este texto/conto foi elaborado há tempos por duas amigas ou sejam as autoras deste blog. Foi uma brincadeira que nos deu muito gozo participar.


Imagem do Google.


Eles encontravam-se todos os dias naquele verão à mesma hora, na mesma praia e eu como adoro estar na praia ao entardecer, também estava todas as tardes ali e não pude deixar de os observar porque via-os chegar sempre a cavalo, umas vezes a galope à beira mar outras vezes em passo de passeio. Ficavam naquele sítio cerca de meia hora, trocavam caricias e notava que também mostravam carinho pelos cavalos. Era sempre eu que saía da praia primeiro, porque começava a escurecer e não me sentia bem estar ali, como que a partilhar o amor deles!
Parecia um amor tão intenso e apaixonado, que por momentos me lembrei do meu primeiro amor! Sim, esse foi o meu grande amor, a minha paixão!

Tinha então 16 anos e ele 19. Conhecemo-nos igualmente num local de praia, já lá vão muitos anos, mas o nosso amor vivido tão ingenuamente, foi interrompido...Desde então nunca mais nos encontramos…Tramas do destino, talvez....

Bem, deito as recordações para trás das costas e retomo o meu caminho a casa.
Nada nem ninguém me espera. Mas estou habituada a esta solidão, que me começa a pesar... Já sei, quando chegar a casa vou tomar um banho e já decidi ir comer um peixe grelhado naquela esplanada que fica a dois passos com uma linda vista para o mar e para a serra. Fazem também umas saladas óptimas... Ao chegar ao restaurante, sentei-me naquela mesma mesa de sempre e fiz o meu pedido. Não foi necessário abrir a lista porque já sabia o que ia ser o meu jantar de cor e salteado. Cometi um pecado... Quero dizer dois pecados, pedi uma sangria de espumante rosé. O outro pecado foi no final da refeição antes do descafeinado que foi uma sobremesa deliciosa. Já há alguns dias que andava para pedir mas como tem muitas calorias encolhia-me sempre... Vou dizer baixinho...Banana Split - A sobremesa feita com banana, 3 bolas de sorvete, chantilly, cobertura de caramelo e chocolate... E tudo isso por 535 calorias! Mas ficou pela metade porque não consegui comer tudo. O restante levei para casa. Nessa noite foi a maneira que eu encontrei para esquecer um pouco as recordações que tinha tido ao anoitecer a caminho de casa.

Não sei se foi da sangria que estava óptima, mas tive uma noite descansada e levantei-me muito bem disposta.

Preparei o pequeno-almoço e como sempre fui tomá-lo na varanda para ver passar os vizinhos e devolver-lhes as saudações. Nisto, ouvi o trote de um cavalo e esperei... Esperei...Mas a intensa luz solar não me permitia vislumbrar o cavaleiro...
Era vulgar naquela localidade agrícola, no entanto com o mar tão perto, haver homens e mulheres que passeavam a cavalo.
Olhei na direção de onde vinha o som, agora mais intenso. Apercebi-me pelos contornos que era um homem.
A poeira levantada pelo trote do cavalo, que distinguia agora, ser negro. O calor provocado pelo sol, a poeira levantada, entontecia-me, mas simultaneamente sentia-me excitada.
O cavalo aproximou-se tão rápido quanto um relâmpago e deparei-me
com uma figura do meu passado recuado, e no entanto tão vivo!
Vi um homem com mais uns 20kg, de cabelo ralo e esbranquiçado e uma ligeira proeminência abdominal. Pensei: é ele!
Não, não pode ser ao fim de tantos anos, quantos? Talvez 35-40! !
Ele perguntou-me:
- Lembras-te de mim?
Aquela voz fez-me recuar até à minha juventude. Sim, era ele!
Ele desmontou do cavalo, aproximou-se lentamente, com os seus olhos verdes, por quem me apaixonara, fixos nos meus.
Não houve palavras. Enlaçou-me nos seus braços e beijamo-nos apaixonadamente.
No dia seguinte, na praia ao entardecer, eram dois casais que trocavam carícias...

-Ó menina acorde, acorde menina...Era uma vizinha que me estava a chamar pois eu tinha adormecido com o sol a dar-me na cara. Quando ela viu que eu tinha acordado pediu-me desculpa de o ter feito. É que reparou que eu tinha adormecido e que estava com o corpo todo de lado quase a cair da cadeira. A primeira coisa que fiz foi levantar-me de repente e verificar se estava algum cavalo por ali. Dei-me conta que tinha sonhado naquele espaço de tempo que não tinha sido tão curto assim. Pelas minhas contas durante cerca de meia hora estive a namorar num sonho.

Comecei a rir às gargalhadas e a levar a louça do pequeno-almoço e por pouco não espalhei tudo no chão da cozinha. Comecei a falar sozinha e a criticar-me a mim mesma.

Não podia ser, tinha que dar um rumo à minha vida. Já que não tinha sido colocada em nenhuma escola para dar aulas, ia aproveitar e inscrever-me numa escola de equitação que havia a cerca de dois quilómetros dali. Para o próximo verão era eu que ia passear a cavalo ao entardecer na praia e quem sabe na companhia de um cavaleiro solitário para observarmos os dois o pôr-do-sol.

Marazulmalaga




FIM