sexta-feira, 19 de junho de 2015

Fotografia de Mulher num Molhe


Juvenália Oliveira Fotografia
Rio Tejo


O vocabulário da experiência constrói o poema,
pedra a pedra, somando o que se diz que é a vida
ao que dela dizemos. E no meio desta troca de
palavras, a mulher da fotografia avança até ao
fim do molhe, com o chapéu de chuva aberto.
Ouve as ondas, como se elas lhe falassem; e
olha para o outro lado da água, onde se abre
uma escura margem de ciprestes e choupos.
Eu diria que, entre a mulher e o bosque, correm
as águas do poema. Não sei dizer de onde
vem o seu curso, nem qual o estuário em que
desagua. Porém, se me aproximasse da mulher,
e lhe pedisse para fechar o chapéu de chuva e me
deixar ver o seu rosto, uma explicação poderia
surgir; mas acaso ela teria consigo a chave
do poema? O seu mundo limita-se a esta baía
que as suas mãos envolvem, numa busca de
recordações. E eu estou fora de tudo o que ela
pensa, enquanto construo o poema de que ela
faz parte, com a solidão que a protege de mim.

(Nuno Júdice)