domingo, 31 de maio de 2015

Como em Agosto...

Adão Cruz


Como em Agosto, na Ria, quando chegas da Barra e te lanças à água, finges de afogada, eu corro a sal­var-te, trago-te ao colo e nado sem esforço, tu não pesas, somos os dois um só, uma só forma. Alquimia, conjunção astral, o que quiserem.

Sempre que vou à Barra vejo ainda a tua casa ape­sar de demolida, procuro-te nas águas, agora negras, no cheiro às ervas das areias, na maresia e na salsugem, procuro-te na luz, a luz branca das salinas, estás ainda na ponte de madeira que já não há, passa um barco da Capitania, quem sabe se não te leva para a Torreira ou S. Jacinto, procuro-te na maré cheia e na maré baixa, nas gaivinas, nos patos reais, nos maçari­cos, nas rolas que passam no fim de Agosto. Há uma gaivota que voa em direcção ao sol.

— Aquela gaivota enlouqueceu, diz Afonso Fur­tado, meu pai, que é tu cá tu lá com as aves da Ria.


Manuel Alegre
(in A Terceira Rosa, Dom Quixote)